Saber começar, criar e acabar

Um minuto após terminar o concerto de Ornatos Violeta esta quinta feira, no Nos Alive, senti a necessidade de escrevinhar aquilo que várias vezes sinto ser verdade e que esta banda, extraordinária, do Porto torna real. Antes de misturar uma simples banda com o mundo dos negócios, resumo de forma singela o percurso deste projecto enquanto criador de emoções, sentimentos… valor portanto.

Os Ornatos Violeta começam em 1991 e terminam em 2002, pelo meio ganham o Rock Rendez Vouz, lançam dois álbuns (1997 e 1999), pelo meio participam na colectânea Tejo Beat em 1998 e na celebração dos 20 anos do Xutos e Pontapés com uma versão de “Circo de Feras”… e é isto. Talvez de assinalar que durante o seu período activo, colocaram Portugal a cantar em português, marcando de forma inolvidável o panorama da música nacional.

Com este resumo muito resumido, até porque não foi uma carreira activa longa, avançamos até 2012 e vinte anos depois de terem dado os primeiros acordes. Com alguma surpresa, e depois de um silêncio absoluto e de dois álbuns (produtos) que estavam apenas nas prateleiras das casas da geração de 70/80, a banda portuense anuncia concertos nos coliseus (Porto, Lisboa e São Miguel). Resultado, 4 concertos (um quarto no Festival Paredes de Coura) de sucesso absoluto e a garantia de que todas as músicas (ingredientes) se mantinham actuais (e com a mesma capacidade de retenção e conversão). Há dois dias, voltaram a pisar o palco (e vão fazê-lo mais duas vezes este ano) em jeito de celebração do album “O monstro precisa de amigos”, e mais uma vez… Venderam tudo.

De facto, os Ornatos Violeta mais do que uma banda, são um projecto fantástico, que soube começar, avançar e criar um valor imenso em cada um dos produtos que foram lançando, mas acima de tudo souberam acabar. Souberam gerir o projecto, o negócio, tiveram sempre a noção do momento, do valor que estavam a criar e de antecipar quando é que, possivelmente, já não iriam ser capazes de ser especiais. É aqui que cruzo este projecto musical, com qualquer outro projecto, negócio ou ideia. Considero ser fundamental para qualquer empreendimento, de qualquer dimensão, dinâmica ou estrutura, haver uma consciência total de qual é o propósito, qual o valor criado e para quem é criado. É crucial ter uma noção clara do estágio do projecto e do estágio do sector onde está inserido o projecto.

Em suma, quantos negócios tem fulgor inicial e conseguem ser dinâmicos, únicos, disruptivos, conseguem ser muito bem sucedidos e antecipar tendências, mas por alguma razão (e é sempre a razão de mercado) a certa altura definham até à extinção? São muitos, são mais do que menos, e uma das justificações obvia é esta incapacidade de parar, de entender que o mercado já não é aquele, que o produto já não é entregue, que simplesmente já não criam o valor que criavam. Os Ornatos Violeta perceberam isso e possivelmente não iriam conseguir entregar um terceiro album novamente grandioso (estava pronto um terceiro album – Monte Elvis, mas que não chegou a ser comercializado), fazendo-os entrar num período menor, difícil de gerir e que invariavelmente os levaria ao mesmo fim, mas de forma penosa e com efeitos irreparáveis. Assim, o que temos hoje é um conjunto de profissionais, que se juntam de forma cirúrgica e que continuam a produzir um valor imenso, para um mercado desejoso de comprar. Não me parece haver dúvidas de que os projectos podem ser intermináveis, mas o produto, serviço, emoções, sentimentos, valor que se criam são finitos e esse fim deve ser antecipado de forma a recriar-se o negócio para continuar a ser relevante.

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