O meu maio materno…

Estes últimos três dias marcaram, cada um deles, datas com significados díspares mas que se complementam na minha vida.
O Dia do Trabalhador tem, para mim, um significado enorme. Não pela relevância política, mas acima de tudo pelo significado do acto de trabalhar, produzir, criar, levar por diante, tudo actos dinâmicos, manisfestações de energia e resiliência. Não o entendo como um negócio, onde existe troca comercial, o trabalho para mim é o que somos por inteiro. Não é a posição ou o cargo que ocupamos, é uma atitude, uma forma de estar. É o que nos torna livres.
Ainda adolescente e em pleno processo de crescimento, a responsabilidade era vaga e portanto, a minha consciência entre a ação e o resultado dessa ação era inócua, talavez como a maioria dos adolescentes ocidentais. Felizmente, nas últimas décadas, a grande maioria dos jovens não passa a adolescência a trabalhar esperando obter um resultado financeiro. Via, porém, a minha mãe a trabalhar, a trablhar muito, ou muitas horas, não sei como media a quantidade de trabalho mas tinha essa noção, que era muito. Talvez porque não a via parar, fosse no seu local de trabalho, fosse em casa e depois no seu local de trabalho novamente, era este o ritmo… Quando já tinha um pouco mais de espírito crítico, insurgia-me e pedia justificações, como se aquilo não fizesse qualquer sentido. Que raio… a minha mãe não tinha mais nada que fazer? Não teria hobbies? Não se cansava? Todo este ritmo pelo dinheiro? Mas nós eramos simples, não nos faltava nada, absolutamente nada… mas pelo dinheiro não seria com certeza.

Ontem, dia 02 de maio de 2020, fui pai. Pai pela quarta vez.
Costumo dizer que dificilmente me veria a partilhar a vida com alguém, quanto mais ser Pai… e quanto mais ser Pai pela quarta vez. Ao meu lado nesta caminhada, está outra mãe, a mãe dos meus filhos.
O meu quarto filho, com a graça de Deus, veio oferecer-me um maio materno. Representará para sempre a força, singularidade, coragem, resiliência, liderança que só as mães têm. Tudo características de grandes trabalhadores/as, de pessoas livres, que escolhem o seu caminho e ultrapassam qualquer obstáculo, individuos valiosíssimos, que por onde passam criam um valor incalculável. Individuos como a minha mãe e a mãe dos meus filhos.

Hoje é o Dia da Mãe.
Deveria ser assim, ponto final parágrafo.
A minha mãe ficou orfã ainda criança, foi criada por uns tios que tinham filhas da mesma idade. Todos nós já vimos a estória da gata borralheira
Casou depois dos trinta e aos quarenta e dois teve o segundo filho. Hoje, tem seis netos, setenta e sete anos, reformada, combate um cancro há mais de quatro anos e continua a trabalhar muito.
A minha mãe, não pará de trabalhar, e só já adulto percebi, que ela não pará de trabalhar porque é inteira e livre assim. Saber respeita-la foi dos actos mais humildes que já tive.

O maio é materno e a ele fica reservado a minha vénia.
As mães serão sempre o expoente máximo de amor, dedicação, santidade e… trabalho.

Trabalho em casa… e agora?

Há pouco mais de um mês fechava a porta do meu gabinete e agarrava no que achava ser o material mínimo para replicar o meu dia a dia no escritório. Tinha clara noção de que aquela quinta feira marcava o início de um período desconhecido, atípico, mas igualmente desafiante e motivador, afinal o nosso trabalho não é o que fazemos, é o que somos.

Rapidamente o termo teletrabalho passou a fazer parte do dia a dia, como um novo paradigma para aqueles que desempenham funções digitais, administrativas e de gestão, acredito porem que já por mais do que uma vez teriam utilizado o recato do lar para terminar aquele projeto mais caótico, ou aquele mapa que teimava em não ficar alinhado porque o ambiente no escritório é demasiado “ruidoso”, até mesmo aquela manha engripada e dolorosa, mas que se veio a revelar altamente profícua. A mim já me aconteceu e não é anormal fugir do escritório para conseguir encontrar um ambiente mais propício ao que me estou a propor fazer.
O trabalho remoto, prefiro o termo, não é de hoje, não é possível apenas devido às funcionalidades digitais, que o digam os serviços de “costumer service”, desde há muito que utilizam o telefone para desempenhar as suas funções, ou radialistas que produzem os seus conteúdos em casa há tanto tempo. O que é de hoje é, de facto, o manancial de ferramentas disponíveis, e se ontem era uma miragem a aceitação do trabalho à distância, amanhã (ou já hoje) será uma realidade óbvia.

Ora, se já tinha partilhado a minha visão sobre a liderança e o presentismo neste paradigma de trabalho, partilho 4 regras de ouro para manter os mesmo níveis de motivação, empenho e produtividade dos indivíduos e das equipas:
1. Estar confinado a um espaço familiar, mais informal e com as mais variadas condicionantes, cria uma confusão normal no horário biológico e é fundamental definir um horário de disponibilidade total para o trabalho em equipa, por exemplo das 10h às 12h e das 14h às 16h. Com o balizamento destes horários, toda a equipa sabe que naquele momento todos estão disponíveis e em frente ao computador. O restante tempo deverá ser gerido segundo as necessidades e as exigências imposta por cada um. A avaliação do trabalho recai no trabalho feito e entregue, não na presença física do indivíduo.
2. É fundamental estar munido das ferramentas necessárias para desempenhar as suas funções. Não ter acesso à intranet quando é na rede que tem todos os seus recursos de trabalho não vai dar bom resultado. O mesmo se aplica com os vários softwares de produtividade, é fundamental definir muito bem, o que é e para que serve. Se não for claro para todos, a cadência e partilha de informação não seguirá um ritmo eficaz e a produtividade não será a ideal.
Alguns exemplos:
Slack para comunicação imediata e pesquisável (mais seguro do que o Zoom para conference calls);
Email para comunicação externa;
Dropbox para partilha de ficheiros com um tamanho superior (o Slack é passível de ser utilizado para partilha de ficheiros);
Notion para quem trabalha em equipas multidisciplinares. Uma ferramenta de trabalho incrível;
Outras há, melhores, piores, cada uma com as suas especificidades. Acima de tudo encontrem as ferramentas que sirvam as vossas necessidades e que vos ajudem a elevar a vossa proposta.
Nunca Whatsapp. É fácil de cair na tentação de partilhar trabalhos no chat, mas não é esse o propósito da app.
3. De forma a manter as pessoas todas “ligadas”, aconselho a definirem uma hora para conversarem todos em conjunto. Algo totalmente informal, sem agenda definida, que sirva acima de tudo para olharem uns para os outros e manterem os laços, ouvirem as piadas do costume e naturalmente partilhar as dúvidas e ideias. As nossas são às 11h;
4. A relação ambiente familiar e computador pode ser bastante perversa, tudo está à mão e, portanto, dividimos os minutos entre estes dois universos. Não deixem que isso aconteça. Definam bem o momento em que estão a trabalhar e os momentos familiares. É mais saudável.
Como nas instalações das nossas organizações há fundamentos, estas 4 regras, apesar de simples, foram importantes para definir critérios.

Acredito que muitas organizações vão aprender a dar valor ao trabalho remoto e tenderão a propor este formato. Há uma poupança brutal em deslocações, tempo útil de trabalho, o foco aumentará, as instalações deixarão de ser tão relevantes… São muitos os pontos positivos. Todavia, não serão apenas as organizações a ter que valorizar o trabalho remoto, os colaboradores também terão de aculturar estas alternativas e usufruir das suas vantagens.

A intolerância das Minorias

A nossa evolução como seres racionais está assente na nossa capacidade de criação de cultura. Ao contrário do expontâneo, natural, virgem, o facto de criarmos cultura, dá-nos uma dimensão superior a nível intelectual. A inteligência animal está assente nos seus instintos, e mesmo estes variam de espécie para espécie. Acrescento nesta partilha a inteligência artificial, apenas possível porque nós, humanos, conseguimos entender os mistério dos números e a esses juntamos códigos de letras, originando uma imensidão de caracteres que resultam em automatismos artificiais independentes.

De facto, ao longo da nossa existência, fomos capazes culturalmente de evoluir como seres vivos, construímos, inventámos, resolvemos, curámos, criámos, definimos padrões de vivência individuais, colectivos, globais, cruzámo-nos nas tradições ou evoluímos/progredimos individualmente nas nossas decisões. Em suma, a nossa capacidade de pensar torna-nos responsáveis de nós próprios pela decisão das nossas acções.

Reduzindo estas generalidades para a realidade das últimas décadas, o ritmo de crescimento do conhecimento, a evolução palpável do bem comum e a progressão a que assistimos da multiplicidade de formas de estar, educações, tradições, crenças, a exclusão de tudo e a cada vez menor inclusão, é de tal forma grande que somos desafiados a continuar a crescer culturalmente para tolerar, aceitar, entender e respeitar, toda e qualquer forma de estar.

Hoje, as minorias* vão vencendo batalhas, numa guerra, acredito, que não terá fim, já que algumas “minorias” também são uma forma de estar. Curiosamente, as minorias são arrogantes, não são apenas um conjunto de pessoas, menor em número do que maior, que vivem ou tem a visão de algo diferente da maioria e que portanto expõem-se, exigindo que a maioria os aceite (com todo o direito, diga-se). São arrogantes, porque apelam à tolerância, mas não são tolerantes. É um paradoxo irresponsável, egoísta e que infelizmente tem repercussões para todos, minorias e maiorias. São arrogantes, porque advogam verdades absolutas, exigindo que as maiorias alterem os seus hábitos em nome destas verdades absolutas, mas não conseguem ser tolerantes perante as necessidades absolutas de todos, das minorias e das maiorias. As minorias são arrogantes, porque não se querem vacinar, mas exigem que os omnívoros comam só a parte dos vegetais. As minorias são arrogantes, porque não abdicam da sua crença para um bem maior proporcionando imunidade de grupo, mas afrontam um Deus maior (seja de que religião for). As minorias são arrogantes, porque usufruem do sistema nacional de saúde, mesmo quando contribuem activamente para o mal de todos, não da maioria.

Eu também pertenço a uma minoria, sou cristão, somos muito menos do que o grupo de pessoas que não acredita em Deus nenhum, mas nem por um momento, pelo amor que me é proposto, serei arrogante ao censurar um bem maior. Eu também sou uma minoria e exponho-me a ela, propondo respeito e aceitação, mas jamais “cresço” perante um igual em sinal de superioridade minoritária.

A evolução cultural, acontece porque somos capazes de viver em harmonia, num mundo de diferenças, mas a harmonia é quebrada quando a pequenez e irresponsabilidade é o alicerce das minorias.

*O termo “minoria” é usado às vezes para descrever as relações de poder social entre grupos dominantes e subordinados, e não apenas indicar a variação demográfica dentro de uma população.

Credibilidade acima de tudo

Em 2016, Garrett McNamara “apoiou” a candidatura de Almada a Cidade Europeia do Desporto para o ano de 2018. Rapidamente choveram manifestações positivas e negativas acerca desta opção de representação, sendo natural, até porque Garrett McNanamara não é português o que desafia desde logo a condição patriota dos portugueses, é também lógica, afinal já representou a Nazaré, Portugal, pelo meio marcas e agora Almada.

Já há algum tempo que ponderava escrever acerca deste fenómeno, agora penso ter chegado a altura certa. Desde já, por questões profissionais, sendo marketer e tendo colegas a tomar estas decisões (de escolhas sobre endorsement), apraz-me perceber que todos fizeram excelentes opções ao escolher McNamara como representante daquilo que queriam comunicar. O alcance que conseguiram foi excepcional e por si só, sendo que estamos a falar de bens de consumo (café) ou locais (pais, cidade e vila), o critério de segmentação predefinido é bastante alargado, logo os resultados só podem ter sido mais do que conseguidos. 

Recuando bastante no tempo, e de forma a sustentar esta opinião (não querendo entrar em pormenores técnicos de surf), quando a Câmara Municipal da Nazaré procurou explorar a especificidade da Praia do Norte, recorrendo a um surfista estrangeiro disponível para desbravar as condições únicas desta zona, de forma a dar a conhecer, logo explorar economicamente esta vantagem competitiva (reforço a exclusão da questão tecnica de surf), essa escolha provou ter sido perfeita. Os intentos da autarquia, na minha opinião, foram mais do que conseguidos. A Nazaré beneficiou de um alcance sem igual, de extensão mundial, percorrendo todo o tipo de meios e de reconhecimento autentico, já que a zona apresentava-se como tendo ondas específicas e o surfista explorou essa especificidade no seu expoente máximo. Assim, podemos concluir que o objectivo era claro e o resultado superou esse objectivo. Hoje, a Nazaré está no mapa (reconhecimento) e evoluiu economicamente no sector privado.

Pegando nos percursores (CMN) e levando esta estratégia para todas as outras relações representativas – Portugal, Café Boundi, Lion of Porches, Mercedes e agora Almada, podemos assumir que foram opções válidas, até porque os valores de representatividade (é publico) são interessantes e os resultados imediatos – a constante opção pelo mesmo personagem faz com que o reconhecimento se mantenha em alta, foram também bastante inteligentes já que todas estas marcas tentavam ir buscar algo inspiracional ao “Surf” – com reconhecimento evidente e duradouro. Portanto, parece não haver espaço para grandes críticas negativas às ligações das marcas com este indivíduo, não me parece sequer discutível que as estratégias acima descritas fossem erradas, os resultados provaram ser certeiras.

Todavia, há efeitos colaterais neste tipo de estratégias longas no tempo e comuns na génese. A médio prazo e quando a temática exposta é especifica, neste caso – Surf e Ondas, o alcance per si, sem critério e sem sustentação, não só não converte, como o investimento fica disperso. Senão vejamos, a Nazaré neste momento ficou conhecida, mas, além de projectos privados de imobiliário (não hotelaria), o investimento que aparece, aparece para investir no Garret Mcnamara e não na Nazaré. O que me parece natural, já que o reconhecimento está no indivíduo e não a marca/produto/serviço. Este fenómeno está de facto a acontecer, tendo a Câmara local voltado a investir no reconhecimento da zona por outras vias, não no surf actividade, mas na zona turística como um todo.

A credibilidade também fica beliscada a médio prazo, ou seja, se o objectivo foi apenas alcance/reconhecimento (awareness) o proveito é total a curto prazo, porem a médio prazo a mensagem global de curta duração, torna-se de média duração pelo target conhecedor, o que define como negativa a mensagem se esta for inócua. O que é o caso, já que o mensageiro neste caso não transporta apenas a mensagem, ele proprio representa-a.

Volto à primeira frase e de lançamento deste tema – Almada, na minha humilde opinião, escolheu muito bem se o objectivo é angariar votos no exterior, o que me parece lógico. Todavia, não geriu pelos vistos o target conhecedor e detentor de opinião qualificada, o que em casos como este são fundamentais ter em conta. Não só pela relação social com a edilidade, mas também pela relevância que o target “core” tem a longo prazo numa zona tão especifica e tão importante para Almada como a Costa de Caparica.

Em jeito de conclusão, deixando uma opinião menos mercantilista mas largamente mais eficiente – Algo de muito errado se passa quando se continua a achar que é dinheiro bem gasto disparar “cartuchos” indescriminadamente de forma a acertar em alguém, sem ter a minima capacidade de analisar e apontar ao alvo certo para o produto certo. Já não é nesse tempo em que vivemos. 

As administrações já não podem ficar contentes apenas com cadernos de valorização hiperbolizados, a conversão real de tal investimento tem que ser tangível e de preferência deixando um legado de credibilidade e reputação gerível. Será sempre fácil de apresentar resultados inócuos, mas cobertos de um valor imenso percepcionado (o alcance e reconhecimento).

O Presentismo entrou em crise…

Nunca fui muito de temas de actualidade mas o que estamos a viver ultrapassa qualquer tema mundano. Tudo é uma excepção nestes dias e parece impossível passar ao lado do Covid-19. 

De facto, esta pandemia já alterou por completo o nosso dia a dia, com particular incidência na nossa actividade laboral. De repente o termo tele trabalho salta para tudo o que é noticia, as redes sociais explodem de partilhas caseiras com a temática “Work at home”, muitos softwares de partilha de trabalho são testados pela primeira vez nas organizações, equipas inteiras apercebem-se que é possível “teclar” sem estar por perto e as lideranças são pressionadas a repensar a forma como gerem, mas acima de tudo, como controlam os colaboradores.

Só por si a palavra controlar já me cria uma certa urticária, mas serve bem para o caso, aliás é a palavra certa para definir liderança na grande maioria do nosso tecido empresarial. Ainda somos os chefes e patrões, os manda chuva e capatazes, ainda optamos por mandar e justificamos a autoridade com a hierarquia. É mais fácil e o resultado aparenta ser o mais positivo para a organização. Pessoalmente acredito que também dê um certo gozo a quem usufrui de tal estatuto, não fosse o Ego um animal guloso.

O tema liderança começa a ser recorrente e agarrado a este tema vem o “treino” da liderança, apesar de começar a ser falado e de haver quase mais Coaches do que lideres no mercado, as lideranças das empresas portuguesas continuam a adorar o Presentismo (sim, existe no dicionário português), o acto do colaborador estar presente, não necessariamente estar a produzir, mas estar lá. Ora, por estes dias o Presentismo entrou em crise, e com ele o pânico instalou-se no seio dos lideres e no resultado do controlo das pessoas. 

Como é que é vão saber se as pessoas estão a trabalhar se não as estão a ver? Como é que vão acarretar comandos se não foi possível levantar a voz? Como é que passarão trabalho se não se podem deslocar ao gabinete? Quantas vezes foram à casa de banho? E fumar? Tudo perguntas que representam alimento de poder, que em nada justifica uma boa liderança, ou a capacidade de gerir bem recursos. Autentico sustento de cargos superiores, que há muito já não justifica o que são. Crenças e posturas que inibem o máximo potencial dos recursos e naturalmente, boicotam o valor das organizações. O Presentismo está em crise e esta não é uma crise passageira, veio para ficar, veio desafiar os indivíduos a serem melhores, a aprenderem a procurar resultados concretos, entender a duração das coisas, a aceitar o silencio como máximo poder de comando, a organizar de forma a ajudar, a partilhar os resultados de forma a aumentar o retorno, a modernizarem os métodos… Acima de tudo, a perceber que o Presentismo sempre foi uma falácia corporativa e que o tele trabalho é apenas mais uma forma de laborar.

As ultimas gerações foram educadas a pensar, estão mais preparadas e pensam de forma critica, exigem participar nas organizações, pouco importa onde estão, como o fazem e a que nível o manifestam, eles querem fazer parte de algo e esse algo terá que ser muito superior a um chefe ou director, muito menos serão quatro paredes. Os recursos de hoje, produzem porque acreditam no propósito, e se esse propósito for real e plural, até no cimo de uma árvore prestes a cair serão capazes de entregar a melhor resposta possível ao trabalho proposto… remotamente. 

A Science não é 4 You… É 4 Moms

Geralmente os nossos (de família) sábados começam sempre com uma dúvida terrível… como é que vamos preencher cada minuto das jovens vidas dos nossos filhos. Além das atividades fixas: catequese, escoteiros e algumas festas de aniversário conciliáveis, cada segundo do fim de semana é sofrível ao nível da minha sanidade mental. As justificações são simples, sou muito pouco criativo, dinâmica zero e ainda acredito que entre os 8, 4 e 2 anos já há autonomia suficiente de forma a conseguir usufruir de tempo “livre” para ler três frases de um qualquer pedaço de papel perdido por casa. 

Ora, há sempre a mamã e desta vez voltou a brilhar, já que organizou um super fim de semana surpresa no Zmar, no âmbito das atividades abertas da Science 4 You. Um evento de cariz lúdico, com o objectivo de envolver e com o intuito da participação. Para atingir o seu target óbvio, comunicou de forma eficaz, nos vários meios disponíveis e em particular investiu de forma evidente nos “divulgadores” digitais aka influenciadores*.

O propósito do evento parecia-me bastante óbvio, um fim de semana de época baixa, primeiro do mês, num local com condições fantásticas para acolher famílias e a precisar de faturar, uma marca com necessidade de comunicar num pós natal que é sempre duro e uma reação ao pior mês de vendas do ano (fevereiro). À evidente pertinência do evento, acresce o valor aspiracional da presença de vários blogs, contas de instagram e podcasts familiares. Indivíduos estes que participaram na divulgação do evento, propondo ao seus seguidores um fim de semana de experiências cientificas.

Até aqui tudo faz sentido e esta seria sempre uma estratégia vencedora, só que não… como diz o outro. Num plano que foi desenhado e pensado para ser simples, de custo relativamente baixo e com um retorno muito interessante, gerou-se uma amalgama de erros crassos, muito fáceis de ser evitados, mas acima de tudo opções estratégicas que nos dias de hoje já não fazem sentido nenhum. A Science 4 You quis proporcionar um evento aberto, com o Zmar como parceiro, apelou a um conjunto de divulgadores digitais que o divulgassem em troca de um fim de semana em família, aproveitou ainda esta concentração de Feeds para criar um conteúdo interessante e mais um conjunto de partilhas semelhantes, um guião perfeito senão tivesse criado regras distintas entre iguais.

Organizar e comunicar um evento aberto, mas aproveitar para desenvolver uma ação fechada de divulgação digital (influência), onde são antecipadas as ações, feitas as ofertas de produto habitual e proporcionadas melhores condições aos “convidados”, mas coloca-se o consumidor num patamar inferior sem justificação aparente, só pode ter repercussões negativas junto da marca. Era natural que nos primeiros minutos do dia, já existiam manifestações de desagrado, manifestações estas que também são partilháveis e que tem um alcance mais micro, mas talvez mais relevante para a comunidade dos queixosos, do que os posts e stories dos vários divulgadores digitais que possivelmente partilham dos mesmos milhares de seguidores. É difícil de entender que ao dia de hoje, como gestores de marca, ainda se coloque de lado o consumidor, como se não fosse ele o ator principal. Já é tempo das marcas perceberem que os seus maiores embaixadores são os seus consumidores e a advocacia positiva que tanto procuram é junto destes consumidores que a devem trabalhar.

Erros todos cometemos, mas perceber que estas ações não são erros, mas continuas manifestações sexy de gestão de figuras publicas, onde se continua à procura de alcance em troca de géneros e viveres, é deplorável e uma total falta de noção do agora.

*Quero desde já fazer um disclamer sobre esta opinião pessoal. Não tenho qualquer visão pejorativa sobre o termo, até porque no meu dia a dia cruzo-me com divulgadores digitais, simplesmente tenho para mim que influência tem outra dimensão e só está inerente a um conjunto restrito de indivíduos com determinadas características e atributos, que em nada tem a ver com o numero de “contas” que os seguem. 

Saber começar, criar e acabar

Um minuto após terminar o concerto de Ornatos Violeta esta quinta feira, no Nos Alive, senti a necessidade de escrevinhar aquilo que várias vezes sinto ser verdade e que esta banda, extraordinária, do Porto torna real. Antes de misturar uma simples banda com o mundo dos negócios, resumo de forma singela o percurso deste projecto enquanto criador de emoções, sentimentos… valor portanto.

Os Ornatos Violeta começam em 1991 e terminam em 2002, pelo meio ganham o Rock Rendez Vouz, lançam dois álbuns (1997 e 1999), pelo meio participam na colectânea Tejo Beat em 1998 e na celebração dos 20 anos do Xutos e Pontapés com uma versão de “Circo de Feras”… e é isto. Talvez de assinalar que durante o seu período activo, colocaram Portugal a cantar em português, marcando de forma inolvidável o panorama da música nacional.

Com este resumo muito resumido, até porque não foi uma carreira activa longa, avançamos até 2012 e vinte anos depois de terem dado os primeiros acordes. Com alguma surpresa, e depois de um silêncio absoluto e de dois álbuns (produtos) que estavam apenas nas prateleiras das casas da geração de 70/80, a banda portuense anuncia concertos nos coliseus (Porto, Lisboa e São Miguel). Resultado, 4 concertos (um quarto no Festival Paredes de Coura) de sucesso absoluto e a garantia de que todas as músicas (ingredientes) se mantinham actuais (e com a mesma capacidade de retenção e conversão). Há dois dias, voltaram a pisar o palco (e vão fazê-lo mais duas vezes este ano) em jeito de celebração do album “O monstro precisa de amigos”, e mais uma vez… Venderam tudo.

De facto, os Ornatos Violeta mais do que uma banda, são um projecto fantástico, que soube começar, avançar e criar um valor imenso em cada um dos produtos que foram lançando, mas acima de tudo souberam acabar. Souberam gerir o projecto, o negócio, tiveram sempre a noção do momento, do valor que estavam a criar e de antecipar quando é que, possivelmente, já não iriam ser capazes de ser especiais. É aqui que cruzo este projecto musical, com qualquer outro projecto, negócio ou ideia. Considero ser fundamental para qualquer empreendimento, de qualquer dimensão, dinâmica ou estrutura, haver uma consciência total de qual é o propósito, qual o valor criado e para quem é criado. É crucial ter uma noção clara do estágio do projecto e do estágio do sector onde está inserido o projecto.

Em suma, quantos negócios tem fulgor inicial e conseguem ser dinâmicos, únicos, disruptivos, conseguem ser muito bem sucedidos e antecipar tendências, mas por alguma razão (e é sempre a razão de mercado) a certa altura definham até à extinção? São muitos, são mais do que menos, e uma das justificações obvia é esta incapacidade de parar, de entender que o mercado já não é aquele, que o produto já não é entregue, que simplesmente já não criam o valor que criavam. Os Ornatos Violeta perceberam isso e possivelmente não iriam conseguir entregar um terceiro album novamente grandioso (estava pronto um terceiro album – Monte Elvis, mas que não chegou a ser comercializado), fazendo-os entrar num período menor, difícil de gerir e que invariavelmente os levaria ao mesmo fim, mas de forma penosa e com efeitos irreparáveis. Assim, o que temos hoje é um conjunto de profissionais, que se juntam de forma cirúrgica e que continuam a produzir um valor imenso, para um mercado desejoso de comprar. Não me parece haver dúvidas de que os projectos podem ser intermináveis, mas o produto, serviço, emoções, sentimentos, valor que se criam são finitos e esse fim deve ser antecipado de forma a recriar-se o negócio para continuar a ser relevante.